Moçambique

Nossa Senhora de Fátima de Namaacha

Kanimambo Mamana Maria [Obrigada Mãe Maria]

Namaacha é o mais antigo santuário mariano de África, erguido em louvor de Nossa Senhora de Fátima. A primeira pedra foi lançada em 1942, vinte e cinco anos depois da aparição de 1917, tendo a igreja sido sagrada em 1944. Oitenta e quatro anos volvidos, este importante destino de peregrinação continua a acolher e testemunhar o amor de milhares de fiéis por Mamana, a Mãe Santíssima, e a acolher com carinho os que o visitam. Para além da igreja, o recinto é assinalado pelo monumento erguido em honra  da Senhora de Fátima. Por “não ter sido guerreira na luta armada”, a imagem da Virgem foi apeada em 1977, durante a revolução, mas novamente reposta dezoito anos depois.

Numa terra tão distante da epifania de Fátima, Namaacha demonstra o caminho da fé como meio de união entre povos, mas também do sincretismo religioso próprio da diáspora. Na semana de 13 de Maio (e de Outubro), a localidade transfigura-se com a chegada dos peregrinos oriundos de várias partes do território, mas sobretudo do sul de Moçambique, África do Sul e Suazilândia. Os residentes também caminham, circundando o lugar, cantando e dançando em louvor de Maria.

A Eucaristia do dia 13 de Maio destina-se sobretudo aos locais, em número suficiente para encher o templo, mas a grande Festa ocorre durante o fim de semana que se segue. A primeira visita é à igreja, onde se reza e se aguarda pela confissão. O outro destino de acolhimento é a Gruta de Nossa Senhora de Fátima, um espaço verdejante e acolhedor, assinalado pela presença de uma cascata que jorra água nascida misteriosamente do interior das rochas, de uma pujante árvore propícia à oração e pelo pequeno nicho integrado na encosta rochosa. Entre os poderes curativos atribuídos a essa água, à oração fortalecida pela força transmitida pela poderosa árvore e à presença da imagem numa lapa, estas manifestações cruzam territórios e invocam milhares de anos de práticas votivas.

No Sábado e Domingo, a localidade torna-se palco de manifestação de uma fé espontânea e viva. Guiados pelo muito amor que depositam em Maria, à qual entregam toda a confiança na sua proteção e intercessão, os fiéis acendem velas e depositam pequenos bilhetes e cartas num cofre pousado sobre o altar dedicado à Virgem. Os pequenos pedaços de papel dão testemunho do agradecimento pelos milagres concedidos ou expressam os desejos que se espera virem a ser agraciados por intervenção de Mamana. O reconhecimento pelas graças de Maria têm-se manifestado, também, nas ofertas de cadeiras e outros bens que possam ser utilizados nas cerimónias religiosas do santuário.

 O programa das Festas é intenso e contínuo: começa com a solene Via-Lucia, seguido pela Eucaristia das 18h00, sendo continuado pela procissão de velas e reza do Rosário, Adoração do Santíssimo, vigília noturna e Missa Solene do amanhecer de Domingo. Durante essas longas horas de oração canta-se a várias vozes, ouve-se o rufar do batuque e o som do xiquitxi, enquanto o corpo baloiça ao ritmo da melodia. Uma exteriorização espontânea de fé que impregna e contagia. As cerimónias religiosas terminam com a tradicional procissão do adeus, uma despedida que não esconde a promessa do regresso, como é entoado no cântico dedicado à Virgem: “Não fiques triste, eu vou partir [bis], mas voltarei”.

Ana Cristina Sousa, Professora da Universidade do Porto. Pesquisadora do Projeto