Pictóricos

Ex-voto documentado na igreja de Santa Lucía, próximo a Tegucigalpa, em Honduras, em 28 de agosto de 2013.

Audiodescrição:

Ex-voto pictórico documentado na igreja de Santa Luzia, próximo a Tegucigalpa, em Honduras, em 28 de agosto de 2013. Quadro com moldura em madeira, composto por texto narrativo em agradecimento pela cura de uma patologia. A imagem apresenta uma figura feminina usando saia em tonalidade vermelha; blusa em tonalidade branca e um véu transparente na cabeça. Ao lado direito da mulher encontra-se uma menina trajando vestido em tonalidade laranja, a mesma também utiliza véu transparente. A imagem pictórica é ornada e decorada com figuras fitomorfas nas tonalidades branca e vermelha.

Texto no retablo: “Milagro que hiso el Sor. de Santa Lusia el via 6 de Agosto de 1823. Con Dionicia Bangoas hifa de Domingo Banegas y Vita Crescencia Acebevo Vencinos del mineral de S. Antonio, siendo aquella de edad de sois años, pues habieno padecido dos anos de hnnedad en la naris y no hallando remedio la llevo la madre a vicitar a dich menõr, y estando incada en el templo edernudo y echo de la naris la semilla de  alg on nacida que tiene la madre en las manos quedando disca nina buena y Sana p nto costa de dico Banegas el ano 1826. Zelava Tocit”

Tradução: Milagre que fez a Senhora Santa Luzia no dia 6 de agosto de 1823 com Dionicia Benegas filha de Domingo Benegas e Vita Gresencia Acebedo vizinhos do mineral do S Antonio sendo aquela de idade de dois anos, pois havendo padecido dois anos de enfermidade no nariz e não descobrindo remédio a levou a mãe a visitar […] Senhor, e estando […] na têmpora e feito do nariz a semente de […] nascida que tem a mãe nas mãos ficando dita menina boa e sã […] costa do dito Banegas no ano de 1826. Zelava Tocit


Ex-voto pictórico a Santa Luzia. Acervo do Dr. Jucieldo Alexandre – UFCA. BR.

Audiodescrição:

Pequena placa ex-votiva, em bom estado de conservação, em madeira, 9,5X14,7 cm, com recorte elíptico na parte superior, traz na legenda inserida no rodapé o “Milagre q. fez S.ta Luzia a Anna q. estando enferma De um olho Se vio Livre. Graças a Deos e a Santa. Ano de 1768.”

A  composição mostra Anna, figura feminina, branca, acamada, parcialmente coberta por cobertor azul e branco. Ela, encostada a um travesseiro branco, está com roupa branca que veste o seu busto e ombros, e possui um tapa olho que envolve o olho esquerdo e parte da cabeça. Ao lado direito da cama, uma figura masculina, branca, de pé, com vestimenta marrom escura, em sinal de oração, com as suas mãos unidas à altura do abdômen. Próximo aos pés da cama, uma figura feminina, branca, ajoelhada em posição de reza, com vestido branco, cabelo castanho escuro com coque. À sua frente, entre nuvens, Santa Luzia, em hábito tradicional ao alto.

O cenário do quarto possui um piso em cerâmica quadrilhada, ao fundo uma parede cinza com um quadro que traz animais alados, mostrado parcialmente. Ao alto da cama da Anna, um pano vermelho aparentando, parcialmente, ser um dossel. A legenda está na parte inferior da placa ex-votiva, com escrita  portuguesa arcaica e alguns grifos em vermelho.


Ex-voto documentado no Museu da Basílica de Guadalupe, MX.

Composição pictórica “fria”, configurada em três planos dos quais dois se apresentam por imagens e um por um pequeno texto. O primeiro plano se dá na parte inferior e lateral esquerda e é representado por uma textura lisa, em tonalidade aparentando branco com incidência de desgaste em algumas áreas, no qual a legenda traz:

“Dedico el Presente en accion de Gracias AL Sr. De chalma por haberme encomendado a El que me sacara com bien de uma Operación muy Delicada que fue practicada por los Doctores José Hoyo Monte y C. Zavala: el Dia 11 de  Marzo – 1938 em la Ciudad de México, D.F. / Enriqueta Voga.”

O segundo plano se forma na lateral direita com um ponto que se alonga verticalmente para baixo em uma linha, representando instabilidade por estar situada dentro de um triângulo invertido. O ponto representa o Cristo crucificado e morto em cruz marrom, de carnação branca, vestindo perizônio e cógula vermelhos orlados em laranja, cabelos longos castanhos e tiara branca com a cabeça pendendo para a própria direita, envolto por nuvens que caracterizam a textura ondulada.

O terceiro plano se apresenta em recorte à esquerda, e ao fundo do segundo plano à direita, com textura lisa, onde se nota um grande triângulo estável centralizado, contendo três pontos que se estendem em linhas, sendo dois deles em linhas  tensas (verticais) e um deles em linha calma (horizontal). O triângulo é marcado por um lustre pendurado em tonalidade azul escuro, de onde divergem feixes de luz amarelas e brancas. Os pontos tensos representam médicos e o ponto calmo, o paciente descansado sobre uma maca. Ao entorno, as paredes e vitrais em tonalidade azul e a porta e os objetos complementares à sala de cirurgia todos brancos.


Ex-voto pictórico. Santuário do Bomfim. Salvador. BR.

“MILAGRE Q. FES O SNR. JEZUS DO BOM FIM A JACINTHO PEREIRA SABIDO DE MELIDES, NO ANNO DE 1843, SUA MULHER D. MARIA DUROTHEA BEJA FALCÃO PEGANDOSSE COM O DITO SR LHE DEU VIDA”.

O enfermo, Jacintho Pereira, aparece representado deitado em uma cama de casal, com o seu tronco está apoiado por travesseiros.   Veste um pijama de manga longa, abotoado na frente e com gola. Seu braço direito está dobrado e apoiado no travesseiro. O braço esquerdo está levantado e aponta para a imagem do Senhor do Bomfim, que está representado envolto em nuvens, na sua aparição. A cabeceira da cama e a colcha vermelhas acomodam o enfermo. A cama apresenta um dossel característico do século XIX, revestido de um tecido mais espesso na parte superior e nas laterais com um tecido mais leve, transparente.

A figura feminina representando a D. Maria Durothea, encontra-se ajoelhada, com as mãos unidas à frente, em oração. Seu rosto está voltado para cima, na direção do Senhor do Bomfim. Seus cabelos são pretos e estão presos em um coque. Ela usa um vestido longo e volumoso, que está sobreposto por um xale vermelho também característico da vestimenta da sua classe no século XIX.

O Senhor do Bomfim, em formato pequeno, está representado do lado direito, acima da cômoda, envolto a nuvens, aparentando estar pairando no ar. Está crucificado e seus quadris estão envoltos por um perizônio branco.

Compondo a cena narrativa, existe uma cômoda em madeira com gavetas do lado direito e uma janela envidraçada ao fundo. Os tons utilizados para a pintura da tela são pastéis, as paredes estão pintadas em duas tonalidades de verde, com rodameio branco.

Como afirmamos, os ex-votos são elementos que proporcionam uma infinidade de análises e reflexões acerca da cultura popular e funcionam, também, como documentos históricos e sociais da população em geral.  Neste ex-voto, além da religiosidade e fé que são os pontos principais; dois aspectos chamam a atenção: o mobiliário apresentado que é um registro visual de uma época e a apuração do enquadramento da pintura, com perspectiva, simetria e ponto de fuga.


Ex-voto do acervo do Museo de las Intervenciones. MX.

Este expressivo retablo é datado de 1920. O ex-voto foi confeccionado em placa metálica fina, chapada. A cena é dividida em três representações que formam uma narrativa constituída de imagens e descrição; nota-se ao centro, na parte superior da imagem, San Nicolas em ascensão, envolto em resplendor; no plano central há elementos que representam o cenário da época em que aconteceu a situação relatada, como os veículos, a arquitetura e a vestimenta. As construções em tonalidades verdes e amarelas evidenciam uma larga rua onde circulam homens a pé, um carro e uma carroça guiada por um animal. Na extremidade da direita é possível observar a presença de duas figuras na porta da casa, um homem deitado com a cabeça levemente erguida, coberto por um lençol branco e uma mulher de expressão severa, coberta por vestes pretas, onde apenas a face está aparente. Na parte inferior da cena observa-se a descrição do fato ocorrido: “En el Jacal del Valle en 1920 Magdalena Santoyo viendo a su hijo Tomás muy enfermo invoco al Milagroso San Nicolas y conseguió el alivio.”


Ex-voto do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos. MG. BR.

Audiodescrição

Ex-voto pictórico, com moldura em madeira decorada com frisos pretos.  A cena provavelmente acontece no local da reforma do Reverendo Miguel de Noronha Peres. O Piso do local aparenta ser de madeira. É a representação de uma cena de um acidente de trabalho. Em primeiro plano podemos visualizar dois homens, um em pé e outro abaixado em torno de um cavalete. A parede ao fundo está pintada de azul forte, criando um pano de fundo para a imagem do Cristo. Chama atenção o contraste destas cores.

Este ex-voto é considerado tradicional tanto pelo seu formato quanto pela temática apresentada.  A cena principal aparece no centro da tela, a legenda na parte inferior e a divindade em destaque. A narração de um acidente de trabalho dando graças a sobrevivência, é um tema tradicional e junto com as enfermidades e moléstias é bastante frequente nas placas ex-votivas.

 Na parte inferior da placa, podemos ver a legenda.  Em português do Brasil contemporâneo

A descrição da legenda permite que o observador entenda o motivo da confecção desta placa. Está escrito o agradecimento pelo acidente com o machado ter sido solucionado. O machado atingiu na canela o Luis de França de Jesus.  A obra   era do reverendo Miguel de Noronha, situada na rua atrás da Intendência da Vila de São João del Rei, subindo para o Bonfim. Através da leitura podemos ver a forma como se descrevia o endereço na época, e como era a linguagem escrita comum no século XVIII.

Ao centro da composição, está uma figura masculina, agachada, segurando com as duas mãos, uma chaga na perna esquerda, de onde podemos ver escorrer para o chão um líquido vermelho que se assemelha a sangue. O homem é negro, veste calça azul, camisa de manga longa branca, que está dobrada na altura do cotovelo. Usa um colete azul escuro sobreposto a sua camisa. Encontra-se descalço. No chão, a sua frente, podemos ver um machado; objeto que provocou o acidente.

Detalhe. Homem acidentado

Figura masculina de pé, encontra-se atrás da mesa, segurando o que aparenta ser um barrote ou ripa de madeira. Está vestido com uma calça branca, camisa de manga longa dobrada na altura do cotovelo e usa um colete azul escuro sobreposto. Está descalço. Seus cabelos são castanhos e seu olhar se direciona ao acidentado.

Detalhe

Na parede ao fundo visualizamos um cristo crucificado em uma cruz de madeira escura.  Na parte superior da cruz está escrito INRI (segundo religião católica seria JIRJ e significa Jesus Nazareno Rei dos Judeus) Seu rosto aparenta sofrimento e seu olhar está direcionado para cima. Em volta do Cristo imagem branca semelhante a uma nuvem, simulando uma aparição.

As tábuas ex-votivas encontradas em Minas Gerais, Brasil, possuem um padrão imagético, com pequenas variações, com a imagem de um doente, ou no caso deste o acidente de trabalho, e a divindade envolta em nuvens. Sempre a presença da legenda na parte inferior, indicando o motivo do milagre ou agradecimento. São ex-votos similares aos ex-votos portugueses. A construção do santuário Bom Jesus de Matosinhos e o surgimento das peregrinações estimulou a popularização destas tábuas ex-votivas (o mesmo que placas ou retablo). A temática destas placas era relacionada a problemas corriqueiros na sociedade mineira da época, o que nos traz a forte religiosidade existente na época. Esta tradição de confecção das placas ex-votivas era não só da classe dominante, mas também das pessoas escravizadas e trabalhadores rurais.


 

Ex-voto do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos. MG. BR.

Audiodescrição

Ex-voto policromado com moldura em madeira. Representando a cena de uma pessoa deitada em uma cama com dossel de tecido azul. O cenário possui poucos elementos dispostos e apenas dois planos que proporcionam uma ilusão de perspectiva. Há uma simples composição de cores separadas por uma linha vertical, representando a parede e o piso, dois tons de bege são dispostos, dando uma limitada sensação de profundidade. O dossel representado é uma armação saliente, em trabalhos de talha e com borlas e franjas, que formam um pequeno teto incorporado sobre a cama, tem uma cor forte que se destaca no cenário opaco.

Na parte inferior do retablo, temos a legenda:   “Merce que fes o Senhor do Bom Fim a Maria da Sa q estando sua sogra doente de bexigas ja desenganada de serugõens e Medicos e apegadoce Com odo Senhor, Logo teve saude ada sogra no anno de 1776″.

A legenda traz um português arcaico, tendo como principais características a cursividade e a individualidade gráfica, o que demanda, num sentido contemporâneo, um conhecimento paleográfico. A legenda  representa um agradecimento pela superação da Varíola, também conhecida como ‘bixiga’. Há algumas palavras que possuem grafias já não utilizadas no português contemporâneo, tal como a palavra ‘Serugõens’, que significa cirurgiões.

A figura humana é composta pelo que aparenta ser uma mulher negra deitada com os olhos abertos. Sua cabeça é coberta por uma touca branca com poucos detalhes. Sua cabeça está apoiada por um travesseiro branco com uma ponta amarrada por um laço vermelho. Seu corpo está coberto por uma colcha de tecido rosa claro que cobre a cama. A personagem não tem nome, é referida como ‘a sogra’

O Dossel azul em cima da cama proporciona um contraste com os elementos cromáticos, e as dimensões e disposição da cama no cenário demonstram técnicas de perspectiva, de luz e de sombra.

 

Detalhe. Figura humana acamada

A figura sacra do retablo se destaca em volume, mas possui cores menos potentes. Nesta figura está a imagem de Jesus Cristo Crucificado em uma cruz representada pela cor preta, e em cima escrito ‘INRI’, que é o acrônimo da frase em latim: Iēsus Nazarēnus, Rēx Iūdaeōrum cuja tradução é ‘’Jesus Nazareno Rei dos Judeus’’, a figura de Cristo possui poucos detalhes anatômicos e veste uma túnica branca, tradicional da iconografia cristã.  Há raios solares em torno da crucificação, que é adornada por uma grande nuvem.

Detalhe – Cristo Morto Crucificado


Ex-voto a Nossa Senhora da Ajuda. Bahia. Brasil.

Audiodescrição:

Ex-voto documentado na Igreja N. Sra D’Ajuda, próximo à cidade de Porto Seguro, na Bahia, Brasil. Trata-se de um desenho, no qual se vê seis pessoas, uma edificação e um veículo do tipo Kombi. Uma mulher está sendo transportada em uma maca por duas pessoas e assistida por mais outra. À frente, uma mulher estende a mão para o motorista que está dentro do veículo. O edifício tem janelas de esquadrias, uma entrada lateral e uma frontal de pórtico, bem como um telhado alaranjado. No desenho, na parte inferior, entre o centro e à direita de quem observa o quadro, lê-se: “Ofereço este milagre a N. S. D’ajua por uma Graça Alcansada de uma Paralizia em 21 de setembro de 1966. Maria de Lurdes”. Logo acima do texto, lê-se, em letras pequenas e cursivas “Foto Manoel Rodrigues Canavieiras”.

Nossa Senhora da Ajuda é uma das diversas invocações de Maria, Mãe de Jesus. Esta “ajuda” é-lhe pedida também através de outras invocações como: Perpétuo Socorro, Auxiliadora, Amparo, Livramento, Mercês, Bom Sucesso, Desatadora de nós e outras mais. No caso deste ex-voto, a ajuda concedida por Maria tornou-se concorrente aos médicos, cujo poder sobrenatural de cura afetou a saúde de uma paciente com paralisia, ilustrada em uma maca.

É possível que o desenho seja a encenação do momento em que a paciente está saindo do hospital, carregada por profissionais da saúde, em direção ao veículo que a levará para casa. Maria de Lurdes, a pagadora de promessa, oferece a prova de uma graça alcançada através deste desenho. A assinatura de Manoel Rodrigues nos sugere que o ex-voto foi encomendado por Maria de Lurdes a este “riscador de milagres”, que executou o desenho de forma sugerida pela fiel, detalhando até mesmo a marca do veículo, um Volkswagen.



Ex-voto pictórico do Museu de Arte Popular da Fundação Instituto Feminino da Bahia, Brasil.

Iconografada por Elisabete Assis

Audiodescrição:

Ex-voto pictórico policromado de formato retangular horizontal, envolvido por moldura em madeira, sendo a borda externa pintada em tom avermelhado e a moldura interna pintada em preto. A composição é organizada em dois planos, delimitada por uma linha que separa o piso da parede.

A cena acontece em uma espécie de sala com uma parede verde acinzentada, onde, à esquerda da cena se encontra uma porta retangular entreaberta, delimitada por um contorno branco. O piso é representado de tonalidade marrom, ocupando a porção inferior da pintura.

No centro da cena, encontra-se uma figura humana, feminina, ajoelhada, com o corpo voltado para a direita. A personagem apresenta pele escura e veste um vestido longo branco, de mangas compridas até o antebraço, e que cobre o corpo até os membros inferiores. Os braços estão flexionados e as mãos unidas diante do peito em posição de oração. A cabeça encontra-se coberta por um tecido branco, possivelmente um turbante. O rosto aparenta estar voltado para a São Lázaro, e não apresenta detalhes anatômicos devido ao desgaste da camada pictórica.

À direita da composição está representada a figura de São Lázaro, que se destaca em volume, posicionado sobre uma elevação de tonalidade esverdeada. A imagem está envolvida por uma formação de nuvens em tons claros, estabelecendo a separação entre o espaço físico da terra e o plano celestial. As pernas retas e paralelas encontram-se parcialmente descobertas e os pés aparentam estar cobertos por faixas ou botas de tonalidade branca. Próximo aos pés encontra-se um pequeno cão de pelagem preta, com o corpo voltado em direção ao santo. O santo veste túnica cintada de tonalidade branca que cai acima dos joelhos, parcialmente recoberta por um manto vermelho disposto sobre os ombros e caindo pelas laterais do corpo. O braço esquerdo, junto ao corpo, traz a mão aberta. Enquanto o direito está elevado, flexionado com a mão em gesto de benção. O rosto é ovalado, com barba e bigode em tonalidade marrom. Olhos abertos e orelha esquerda a mostra. Apresenta cabelos longos de tonalidade marrom caídos sobre os ombros.

Na faixa branca inferior da composição a legenda escrita em caligrafia cursiva e no português arcaico, em tinta de tonalidade preta, registra: “Milagre que fez S.Lázaro a Anna – Escrava de Felizarda Ma. De Freitas Estando M to Mal de uma lepra Q Sahio pelo corpo pegou com O S. Teve melhora.”

Através da legenda identificamos a beneficiária da graça como Anna, escravizada de Felizarda Maria de Freitas, e registra o agradecimento a São Lázaro pela melhora da “lepra”.

Interpretação:

Esse ex-voto representa um agradecimento por uma cura recebida. A figura ajoelhada evidencia a atitude de agradecimento, fazendo uma comunicação direta com a imagem sacra posicionada no plano envolta por nuvens. Tal recurso, mostra a natureza divina e a manifestação de São Lázaro. O cenário com a porta aberta sugere o ambiente doméstico onde ocorreu a graça recebida. A junção da legenda e da imagem mostra e reforça a ideia de que a cura decorre da intervenção divina.

 



Iconografada por Lívia Palombo Audiodescrição:

Descrição geral: Placa Ex-votiva pintada, representando a cena de um agradecimento a Santo Tomás de Aquino por ingressar na Universidade. A imagem possui uma menina em primeiro plano e Santo Tomás de Aquino no canto superior direito. Ao fundo, uma igreja e um imovél em um gramado extenso em tonalidades  verde e um céu pintado de azul que possui uma estrela central em tons de branco e o brasão da Universidade de Massachusetts.

Em primeiro plano uma figura feminina de cabelos castanhos, pele rósea e clara, vestindo um casaco em tons de branco que contém um bolso em seu centro, cordão preto de seu capuz e escritas em azul, majoritariamente na manga esquerda e vermelho sob o bolso central. A menina utiliza um shorts em tonalidades preta, com uma logomarca no lado inferior esquerdo com tonalidade branca.

Em plano médio, do lado superior direito, Santo Tomás de Aquino sob uma nuvem flutuante em tonalidade cinza, vestindo uma túnica em tons amarelos e uma capa em tonalidade preta. Em seu pescoço uma formação solar em tonalidade branca e em seu braço direito um livro de capa vermelha com pontas e cruz central em tons de amarelo, em seu braço esquerdo estendido, segura uma pena escrevendo em um livro aberto sob um apoio flutuante em tonalidade marrom. Acima do livro há uma cruz flutuante em tonalidade marrom que possui a imagem de Jesus Cristo em seu centro.

Um pouco atrás, ao lado do Santo, observa-se uma igreja de forma lateral com uma árvore em cada extremidade com seus troncos em tonalidade marrom e suas copas em tons de verde. Janelas em tons de branco, telhado cinza e paredes em tonalidade marrom.

Ao lado da igreja, uma casa térrea e longa que possui as mesmas cores da igreja, sendo elas, telhado cinza, paredes marrons e janelas em tonalidades de branco. Acima desse imóvel, o brasão da Universidade de Massachussetts em tons de azul, branco e vermelho, que possui uma faixa azul na parte superior com três livros abertos e uma cruz vermelha com uma espada em seu centro. Abaixo, possui duas faixas em tonalidade branca e escrita vermelha que diz “Cui servire est regnare”, que significa “a quem servir é reinar” em latim.

  Na parte inferior da imagem ex-votiva, uma escrita em espanhol, diz: “Santo Tomás de Aquino, te agradezco por la oportunidad de studiar em Groton School, como lo hizo mi padre, y por ser tan feliz ahí. Julia Landau, Groton, Massachusetts, 2020.”  



Peça iconografada por: Juliana Carvalho

Audiodescrição:

 

Iconografia: Ex-voto pictórico, datado de 1781, em moldura de madeira na cor marrom clara e que apresenta dois frisos. A pintura exibe à direita, em primeiro plano, a imagem de Nossa Senhora da Conceição, envolta em uma coroa de nuvem em formato semicircular. A figura feminina está vestida com uma roupa branca e um manto azul, as mãos em posição de oração se encontram ao lado do corpo e à frente do tórax. Em volta da cabeça percebe-se um halo dourado e reluzente. Do lado esquerdo, em segundo plano, a imagem de um homem, em menor dimensão, ajoelhado, de frente para a imagem da Santa, com as mãos em posição de oração. Ao fundo, a parede do ambiente onde o homem está, na cor cinza, e o chão de cerâmica recortada, na cor marrom. A parte inferior da pintura exibe uma faixa em tom que se aproxima do branco com o texto de agradecimento que utiliza paleografia e abreviações típicas do português do século XVIII. 

No rodapé do quadro, está a legenda, que traz, em português arcaico do século XVIII:  “Milagre q’ [que] fez N. Sra [Nossa Senhora] da Conceição a Mel [Manuel] Leandro, estando gravem[en]te enfermo de huma postema na perna e valendo-se da d[it]a Sra [Senhora] logo se vio isento da d[it]a queixa em O[utubro]… anno de 1781.”

Este exemplar pertence ao acervo de Gilberto Freyre, do Museu do Homem, Recife, Pernambuco, Brasil.



Iconografia por Elisabete Assis

Audiodescrição:

Ex-voto pictórico policromado de formato retangular horizontal, com composição organizada em dois planos: o plano terrestre, ocupado pela figura ajoelhada, e o plano celestial, representado pela figura de Santo Antônio envolta por uma formação de nuvens em tonalidade cinza. O fundo apresenta tons azulados na parte superior para representar o céu e verdes na parte inferior, indicando o solo.

A esquerda da composição encontra-se a representação de Santo Antônio, em posição frontal, envolto por uma área de tonalidade amarelada que funciona como elemento de destaque. O santo apresenta carnação creme e rosto ovalado; boca fechada, com lábios de tonalidade vermelha; nariz grande e reto; olhos amendoados, aberto e com pupila de tonalidade marrom; sobrancelhas arqueadas e cabelos curto em corte tonsurado de tonalidade marrom; Acima da cabeça de Santo António, encontra-se uma auréola formada por pontilhados pequenos de cor branca.Veste hábito longo de tonalidade marrom, com um terço de tonalidade dourada que rodeia a região da cintura. O braço direito, flexionado, posicionado junto ao corpo, segura um pequeno ramo de lírios brancos; com a outra mão, sustenta o Menino Jesus junto ao corpo. O Menino Jesus encontra-se com o corpo e rosto voltado para a esquerda, com o pé à mostra sobre uma túnica branca com bordas douradas. O braço direito levantado, com a mão aberta em direção ao rosto de Santo Antônio e o esquerdo sobre o tórax de Santo Antônio. Apresenta carnação creme, rosto ovalado, nariz reto, boca fechada com lábios de cor vermelha; covinha em evidência; olho aberto com pupila marrom, sobrancelha fina, arqueada e cabelo curto de tonalidade marrom. Acima da da cabeça do Menino Jesus encontra-se um resplendor de cor laranja com pontilhados de cor branca.

À direita da composição, encontra-se uma figura feminina, ajoelhada sobre o solo e com o corpo voltado para a esquerda, em direção a representação de Santo Antônio. Apresenta cabelos longos de tonalidade marrom, que caem sobre os ombros passando pelas costas e descansa no chão; veste uma saia longa de tonalidade preta e uma camisa de manga longa de cor branca. os braços flexionados diante do corpo, na mão direita segura uma vela acesa e na mão esquerda segura um terço de tonalidade escura.

Na faixa branca da composição encontra-se uma legenda escrita em letras maiúsculas, de tonalidade preta, que registra: “DOY GRACIAS. A.S. ANTONIO. POR AVERME ALIVIADO DE HUNA GRAVE ENFERMEDAD. FRANCISCA MERCADO. MORELIA. 18 DE JULIO. DE 1935”.

Na inscrição escrita em espanhol, registra o agradecimento de Francisca Mercado a S.A por tê-la aliviado de uma grave enfermidade.



Ex-voto pictórico, tradicional, do século XX, de devoção a Santo Antônio, traz um enquadramento que se desenvolve em dois planos.

 

No primeiro plano, à direita, vemos uma casa habitada por três mulheres. Duas seguram lenços rentes ao rosto e outra, de joelhos, segura uma vela e volta-se para o exterior da casa. As mulheres usam véus azulados e vestidos. A casa de pintura azulada e telhado alaranjado está com a porta semiaberta.

 

Fora da casa, cinco homens andam a cavalo, enquanto três andam a pé. Os homens a cavalo estão uniformizados de azul e usam chapéus similares com detalhe vermelho pendendo à frente. Além disso, carregam armas nas costas. Os homens a pé usam chapéus de palha e estão vestidos de branco; dois penduram lenços vermelhos no tronco. A paisagem é composta por árvorese altas montanhas.

 

Ao topo, um homem flutua em uma nuvem branca. Na mão esquerda, segura a haste de uma planta. Na mão direita, carrega um bebê vestido de rosa e de braços abertos que, por sua vez, carrega uma planta na mão direita. O homem usa hábito marrom e cordão. Em ambos, homem e bebê, flutua uma auréola – neste, de tom dourado, naquele, um anel azulado.

 

No plano inferior lê-se em espanhol:

 

En el rancho del Agua Fria el da 5 de Mayo de 1912 fueron aprehendidos por la escolta los Sres J. Guadalupe, Rafael y Maximiano Cortes y llevados a la cárcel: y habiendo invocado a Sr San Antonio la hermana de dichos Sres, la Srita Trinidad Cortes fueron puestos en libertad: y para memoria de este favor, dedican este retablo. Rancho del Agua Fria Febrero de 1913.*

 

*No rancho de Água Fria, em 5 de maio de 1912, o Sr. J. Guadalupe, Rafael e Maximiano Cortes foram detidos pela escolta e levados para a cadeia: tendo invocado Senhor Santo Antônio, a irmã do referido Sr. e Srta. Trinidad Cortes, eles foram libertados: e pela memória desse favor, eles dedicam este retábulo. E em memória desse favor, dedicam este retábulo. Rancho de Água Fria, fevereiro de 1913.

 

Análise iconológica

 

Neste ex-voto chileno, Santo Antônio segue sua costumeira representação franciscana, acompanhado dos atributos da açucena na mão esquerda e o Menino Jesus na direita, sobre um livro fechado. Segundo Azevedo (2010), a açucena, na expressão pastoral, significa “transparência, brancura, beleza e fragrância, como fruto da temperança e do rigor contra as tentações.” O Menino Jesus, atributo preferido da iconografia antoniana, faz referência à aparição deste ao frei Antônio, que estava rezando sozinho em seu quarto. O santo recebe larga veneração popular e é centro de rico folclore. A devoção antoniana popular atribui-lhe a virtude de recuperar “coisas perdidas” – coisas e pessoas. O responsório em gregoriano em honra a Santo Antônio destaca o santo como membra resque perdidas. De acordo com Vainfas (2003), Antônio Vieira o chama de santo deparador, isto é, “aquele que depara, que encontra o perdido.” A partir desta perspectiva, poder-se-ia interpretar que, neste ex-voto, Santo Antônio foi o “advogado das causas perdidas” para J. Guadalupe, Rafael e Maximiano Cortes e “recuperados”, enfim, para o Rancho, para as três mulheres suplicantes. O caráter membra resque perdidas ainda se combina à militarização do santo. Apesar da figura histórica ter passado longe da carreira das armas, Santo Antônio ganhou a fama, especialmente no Brasil, por interferir em batalhas, sendo até mesmo promovido a capitão na fortaleza baiana. Juntando a cruz à espada, o santo soldado poderia interferir na escolta que apreendeu os três homens do Rancho, trazendo-os de volta.

 

VAINFAS, Ronaldo. Santo Antônio, na América portuguesa: religiosidade e política. Revista USP, n. 57, p. 28-37, 2003.

 

AZEVEDO, D. Carlos A. Variantes iconográficas nas representações antonianas. Cultura. Revista de História e Teoria das Ideias, v. 27, p. 41-55, 2010.

 

Por Maria Clara Ribeiro Oliveira, Bolsista/CNPq

 

Em 12/04/24

 



 

Análise Iconográfica

 

Descrição geral

 

Ex-voto pictórico que retrata a cena de um acidente em um teatro, no qual a parte superior desaba, provocando a queda e ferimentos em várias pessoas.

 

O retablo traz, na parte inferior da composição,  em primeiro plano, a legenda descritiva em espanhol:

 

“Em Noviembre de 1931, y em el derrumbe de um palco em um salón de espectáculos, quedó la Sra. Maria Ortega bajo de la palizada caída resultando com muy dolorosas y graves contusiones, pero por um patentemilagro del Santo Cristo de Limpias, a quien invocó, está a la fecha casi restablecida y le da fervientes gracias. Morelia, Eneiro 9 de 1932.”

 

A legenda apresenta o agradecimento da Sra. Maria Ortega pelo milagre de ter escapado com vida do acidente, em que ficou presa embaixo dos escombros com contusões graves e dolorosas. No momento do acidente, pediu a intercessão do Santo Cristo de Límpias. A Sra. Maria Ortega recuperou-se e agradeceu fervorosamente ao Santo, com a materialização do agradecimento neste ex-voto, com data de 9 de Janeiro de 1932 na cidade de Morelia – México.

 

Acima da legenda estão dois momentos distintos do acontecimento: do lado esquerdo está representado o acidente e do lado direito o momento posterior: o agradecimento pela graça recebida.

 

 

 

A imagem da esquerda foi registrada em cores quentes com a predominância do vermelho, o que dá ênfase ao  caos que foi instaurado após o acidente. Uma grande quantidade de pessoas se encontra no local, que se assemelha a um teatro.  No primeiro plano, existe uma fileira de pessoas que olham para cima, a maior parte delas se encontra sentada.

 

 

Um homem à esquerda está de pé, vestido com paletó preto, seus braços estão abertos. Ao seu lado, sentada está uma mulher com traje vermelho e cabelo em coque.

 

 

O centro do salão tem um piso de madeira ripada clara, e está vazio.  No segundo plano, pode-se observar dois homens de pé, a frente de outra parte do público do espetáculo. O homem da esquerda está vestido de terno preto, calça sapatos pretos. A forma como está retratada a sua linguagem corporal (pernas ligeiramente abaixadas, corpo inclinado para esquerda, braços entreabertos, face voltada para esquerda) passa uma mensagem de intenção de fuga. O outro homem de pé, à direita, usa calça e paletó azuis, possui um cinto marrom e calça sapatos marrons. Seu braço direito está estendido para o lado e apoiado na balaustrada que está por trás. O esquerdo está estendido para baixo. A balaustrada separa a área central do teatro da outra parte do público.

 

 

Duas colunas em estilo grego sustentam o piso superior.  É neste piso que ocorre o acidente.  Existem mais duas colunas sustentando um terceiro pavimento, e é este que desabou. Destroços pendem do teto, e dois homens estão caindo do terceiro pavimento.  Dois outros homens estão sentados na balaustrada deste andar.  Uma mulher foi atingida por uma ripa de madeira e se encontra vestida com roupa verde, provavelmente a Maria Ortega.

 

 

O outro momento descrito está representado no lado direito da placa, é o agradecimento.

 

Existe um contraste de coloração entre as duas cenas.  Tons mais claros sobressaem nesta parte, a coloração em tons pastéis envolve o ambiente com suavidade e provoca o contraste com o lado oposto. A imagem do Santo Cristo de Limpias predomina na parte superior, reproduzido como um quadro; com moldura marrom e paspatur de cor rosa claro. A imagem apresenta o torso nu, está crucificado e com coroa de espinhos. Seus olhos estão direcionados para cima.

 

Logo abaixo está um casal ajoelhado. O homem no lado esquerdo está de costas para o observador e usa paletó marrom e calça preta. A Sra. Maria de Ortega veste um vestido longo verde, e um véu preto. A mão direita segura um terço e a esquerda uma vela acesa.  Sua face está voltada para o santo.

 

Na parede ao fundo, está a assinatura do autor do ex-voto pictórico: A. Murguia

 

Análise iconológica

 

O ex-voto foi documentado no Museo de Arte Popular Americano Tomás Lago no Chile e é proveniente do México da cidade de Morelia. 

 

Os objetos musealizados são retirados do seu contexto original, que no caso específico deste ex-voto seria uma igreja, santuário ou sala de milagres, e são inseridos em exposições dentro de um ambiente museal.  A partir disso, os objetos musealizados ganham uma nova significação, que vai depender da curadoria proposta para a exposição, e da composição expositiva que foi elaborada com outros objetos; que podem ser outros ex-votos ou objetos diversos. O ex-voto, a partir da musealização, ganha outros significados relacionados com um objeto de arte.

 

“O objeto de museu – que não significa meramente o objeto em museu – como objeto musealizado, passa a adquirir um estatuto museológico. Tal conversão, do contexto ordinário da coisa ao universo simbólico do museu, implica um processo corolário de ressignificação para que o primeiro, detentor de sentidos em seu contexto precedente não- -museal, adquira sentido no novo ambiente. (BRULON, 2016 p.108)

 

 Este ex-voto apresenta elementos tradicionais de uma composição deste estilo:

 

  1. A posição da legenda na estrutura estética da placa, na parte inferior,
  2. A temática abordada que é relacionada a acidentes,
  3. A presença em destaque do santo de devoção.

 

            A originalidade recai na representação dos dois momentos do acontecido: a hora do acidente e o momento posterior do agradecimento, registrando a temporalidade com a consequente passagem de tempo durante o processo.

 

A cena narrativa foi representada com uma riqueza de detalhes, o que permite ao observador a interpretação do momento do acidente. Todo este detalhamento registrado, descreve a estrutura dos teatros da época, a indumentária das pessoas, além de fazer referência aos hábitos culturais. Por outro lado, demonstra a religiosidade e fé popular.

 

A presença de ex-votos em museus e salas de exposição, amplia mais ainda o alcance destes testemunhos para além do público romeiro e devoto, e ainda permite análises fora do contexto da religiosidade.

 

Referência Bibliográfica

 

BRULON, Bruno. Re-interpretando os objetos de museu: da classificação ao devir. Transinformação, [s.l.], v. 28, n. 1, p. 107-114, abr. 2016. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/2318-08892016002800009

 

Por Fernanda A. Camelier Mascarenhas – Assistente de Pesquisa – Voluntária/ PIBIC

 

 

​Iconografia dos ex-votos do Museu do Santuário de Guadalupe

 

 

 

Ao observarmos ao lado, contemplamos uma interessante cena religiosa de vívida demonstração de fé e veneração. Nela, o crente é apresentado em posição de profunda reverência – humildemente ajoelhado diante da sagrada aparição da Virgem.  Sua experiência e/ou êxtase místico é envolto de uma atmosfera de introspecção, acentuada pela cor cinza que predomina no fundo da imagem. Suas discretas vestimentas são representadas por uma calça marrom e uma camisa branca. Ele aparece ajoelhado, no canto inferior direito da imagem, sobre lajotas levemente avermelhadas com rejuntes de vermelho mais intenso que, ingenuamente, buscam simular uma noção de perspectiva; porém, a pintura se mantém chapada, com elementos harmoniosamente distribuídos pelo plano.

 

Na maioria das pinturas ex-votivas é perceptível a intenção de transmitir o sentimento religioso por parte do artista, e não necessariamente criar uma obra de representação realista.

 

A figura religiosa retratada no centro da pintura é identificada como a Virgem de Guadalupe e aqui surge por entre as nuvens originárias do centro inferior da imagem. Estas por sua vez, embora de estável rigidez compacta, surgem em formas circulares como algodão no ar, emoldurando delicadamente a figura central.

 

 

Interessante observarmos também que a Virgem não fita o crente nos olhos, porque ela inclina levemente sua cabeça para o canto inferior esquerdo da pintura – lado oposto ao fiel. A figura religiosa é completamente feita em tonalidades quentes e vibrantes, encimada por uma coroa amarela; possui um manto azul cobalto que cobre parte de sua túnica vermelha. Ao seu redor é colocada vigoroso resplendor, também de cor amarela, contornada com tonalidade alaranjada, demonstrando sua eminente iluminação.  

 

No todo pictórico há somente a presença de quatro elementos: a Virgem, as nuvens, o fiel e as lajotas. Abaixo foi escrito um breve texto em letra cursiva, o qual não foi identificado em sua tradução, devido ao estado de conservação da obra. 


 

 

Este expressivo ex-voto é datado em maio de 1998. A partir de uma análise técnica de materiais, não é possível identificar o pigmento utilizado em sua confecção, mas observamos que o suporte – papel ou tela – foi inserido em uma chapa de madeira sem verniz.  

Abaixo foram colocadas palavras escritas em preto, usando letras de forma maiúscula e minúscula, em agradecimento e com as seguintes inscrições:

“TE DOY GRACIAS porque la enfermedad ha sido una profunda oportunidad de acercarme mas a Dios y de vivir la pobreza de mi misma. Puebla, Mexico. Mayo 1998. Laura Elena Cuadriello A. Osu”.

 

O criador do ex-voto fez uso de determinada tonalidade de azul cerúleo claro, tornando o fundo um imenso espaço frio e, ao mesmo tempo, jogando, automaticamente, as figuras com tonalidades quentes para o primeiro plano. O fundo ainda é chapado, ou seja, sem apresentação de maiores graduações ou mesmo um leve degradé. Nele também percebemos a presença de sujidades, devido ao seu estado de conservação, as quais alteram a cor em alguns pontos da imagem, a partir de manchas amarelecidas.

 

 

Em relação às figuras do primeiro plano, encontramos estáveis imagens simbólicas divididas basicamente em três núcleos. O todo não apresenta traços de perspectiva, exceto na escada onde o criador do ex-voto sugere, por meio dos sete degraus, limitada profundidade à obra. Da esquerda para direita foi inserida uma peculiar imagem da Virgem de Guadalupe, recortada e colada sobre a superfície do ex-voto e ao centro de uma “vesica pisces” – forma geométrica bastante utilizada em figuras religiosas na arte bizantina e medieval. 

 

Na vesica pisces foram inseridas cores como azul cobalto, amarelo, laranja, vermelho intenso e branco, propondo forte movimento de energia, fogo, luz e calor; distribuídas ao seu redor e de maneira incisiva, contrastando com as cores e volumes da imagem recortada. Ao centro do ex-voto, identificamos uma cruz também com raios de energia, porém muito mais soltos, e ainda um símbolo tríplice em cor branca onde as madeiras se convergem, podendo nos remeter ao fenômeno da trindade. Já no canto direito, três elementos se apresentam como se saíssem de uma vesica pisces deformada a qual, por meio de ligações coloridas, geométricas e simbólicas, retorna à figura da Virgem anteriormente comentada. Dentre os três elementos ressaltamos a escada e o que parece ser um guarda-chuva branco fechado, mas não identificamos, a priori, o terceiro elemento.

 

Nota-se à direita, ao alto do objeto um número de tombo: 1-1929


 

 


Ex-voto foi confeccionado em madeira fina de tonalidade clara. A cena é dividida em três representações que formam uma narrativa constituída de imagens e descrição; nota-se ao lado esquerdo uma árvore inclinada em direção ao centro da imagem; no plano central se observa cinco homens com armas em punho apontadas para dois irmãos, na sequência uma estrutura que aparenta ser uma  casa. Ao lado direito  observa-se a  imagem de N. Srª de Guadalupe em ascensão. Abaixo da cena observa-se a descrição do fato ocorrido. 

 

 

Ex-voto em madeira fina, completamente pintado; A cena acontece em uma sala de grande proporção em relação ao altar e à fiel; mostra paredes em cor, com graduações, azul celeste; piso em tonalidade aproximada do amarelo, com rodapé em tonalidade marrom escuro. No plano central se vê uma pessoa de joelhos em oração aparentemente segurando uma vela acesa em cumprimento de promessa; a figura, que aparenta ser feminina, está voltada para o altar decorado com dois arranjos de flores e uma cruz ao centro; na parte superior se observa flores coloridas e na sequência a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe em moldura ondulada. Legenda, na parte inferior, traz “DOY GRACIAS ALA Sra VIRJEN DE GUADALUPE. POR AVERME ALIVIADO DE […] BRONQUITES/ CARMEN CORONA. ENERO 25 de 1938”.​  

Em linhas gerais este ex-voto possui uma estética bastante aproximada de uma arte ingênua, como a grande maioria encontrada em Guadalupe. Podemos aplicar, também, o termo Naïf, pois é sintomático nas construções pictórico-ex-votivas.


 

 

Retábulo confeccionado em madeira fina completamente pintada, com cena  apresentada em um dormitório com teto possivelmente  composto de vigas de madeira,  parede na tonalidade amarela,  piso  de assoalho; à direita se observa três cadeiras e a imagem de N. Sr.ª de Guadalupe está em ascensão e resplendor, em seguida se nota um criado mudo com dois recipientes brancos: garrafa e copo; ao centro é visível um leito com uma pessoa deitada que utiliza um cobertor de tonalidade azulada; a direita se percebe uma penteadeira com dois vasos de elementos fitomorfos, ao centro um objeto semelhante a um espelho e acima um oratório; a direita se vê um guarda roupa com quatro gavetas e um espelho e em seguida se vê mais uma cadeira e um quadro fixado na parede.

 

A legenda contém a seguinte frase: “LA SEÑORA ANGELLA SANCHES DA GRACIAS  A LA SANTISIMA VIRGEN DE GUADALUPE POR HAVER DADO SU SALUD DE UMA ENFEMIDA DE REUMATISMO DRAPICO. 1-2- 51.” (SIC) A partir de uma análise de percepção visual se nota a divisão entre a construção da cena e uma tarja contendo a legenda. 


 

 

É possível perceber que o objeto pictórico se apresenta chapado em um único plano, em tons frios e textura ondulada, onde se nota a formação de muitas linhas nas partes superior e inferior, que se manifestam respectivamente através de linhas retas e levemente hachuradas que atravessam totalmente sua largura. 

 

À esquerda do espectador é possível perceber a existência de um ponto que se alonga em linha, representado pela Virgem de Guadalupe, em carnação branca e envolta por manto azul, orlada em resplendor em tonalidade amarela no formato de mandorla, centralizada em uma formação ovalada ainda maior, configurada em ondulações azuis e brancas.

 

Este ponto se destaca em meio à cena devido à proporção com os outros elementos, que remete ao tamanho de miniaturas. Logo abaixo do primeiro plano se nota a tarja, contendo o verbete escrito à mão em letras de forma por tinta em tonalidade marrom.

 


 

Tábua ex-votiva completamente pintada, bordas contornadas na cor preta. A construção pictórica está no primeiro plano, ao lado direito se percebe um homem, de carnação em tonalidade rosada, cabelos pretos e curtos, ajoelhado sobre uma superfície em meio a nuvens brancas, entre tons de azul. Ele veste calça marrom, camisa comprida na tonalidade branca, usando sapatos pretos; em suas mãos são visíveis dois objetos: arranjo de elementos fitomorfos, na mão esquerda, e uma grande vela branca acesa, na mão direita, o que pode significar o encontro da luz, o livramento do perigo. O suplicante está voltado para a imagem de N. Srª de Guadalupe, que ocupa o lado esquerdo do quadro, direita do observador; a padroeira se encontra, em sua iconografia tradicional, em meio a nuvens com graduações de azul; está em ascensão e revestida com resplendor dourado.

 

  No roda pé está a legenda: “DOY GRACIAS A LA VIRGEN DE GUADALUPE POR HABERME ALIBIADO DE MI ENFERMEDAD/ MARZO IO DE 1947 VICENTE SANCHEZ.” (sic)


 

 

Tábua ex-votiva em madeira fina, completamente pintada, apresentando sinais de desgaste. 

 

Na cena representada, a construção pictórica se divide em duas partes, do lado esquerdo do espectador está posta a imagem da padroeira, que se apresenta erguida sobre a lua em quarto crescente em preto, na qual se nota, na região da peanha, a presença de um arcanjo de carnação em tom bege, vestindo sobrepeliz em tonalidade vermelha com graduações, com as mãos arqueadas, segurando uma flâmula com tonalidade tal qual a da sobrepeliz. O arcanjo possui asas coloridas em três tons distintos: preto, branco e vermelho, respectivamente. Acima, a Virgem de Guadalupe de carnação em tonalidade bege mais escura que a do arcanjo, cabelos pretos, vestida por uma alva em tonalidade vermelha com graduações e uma túnica verde escura com pequenos círculos em tonalidade verde mais clara no verso com o anverso em tonalidade azul claro, com as mãos em posição de oração, em resplendor; à direita, se encontra uma cama na diagonal, encostada na parede do que aparenta ser um quarto, no móvel que é representado em tonalidade vermelha. Roupa de cama em tonalidade azul claro com graduações. Um corpo de um indivíduo prostrado abaixo da roupa de cama, com a sua cabeça à mostra, de carnação branca e cabelos pretos. Certamente que da Sra. Petra Rangel, que com este ex-voto testemunha o seu acontecimento, como esclarece ainda mais a legenda que está no roda pé da pintura:

 

 “DOY INFINITAS GRACIAS A LA STMA. VIRGEN DE GUADALUPE POR HABERME HECHO EL MILAGRO DE SALVARME DE UMA ENFERMEDAD / PETRA RANGEL DE VELAZQUEZ/ MAYO DE 1968 / QUERETARO, QRO.” (sic)


 

                                                                          Ex- voto em Nossa Senhora de Guadalupe

 

Ex-voto apresentando pintura em madeira fina. A cena é construída num ambiente que mostra paredes de um cômodo com variações de azul acinzentado e verde escuro, piso em desgaste com oscilação de tonalidades branca e amarela.  A narrativa se passa em um leito de hospital, são visíveis três enfermos de carnação rosada e cabelos pretos; eles estão repousando sobre lençóis padrão branco e travesseiro amarelo.  No primeiro plano se observa a legenda na parte superior, à direita da da tradicional imagem de N. Sra. de Guadalupe: “Virgen Maria Santisima de Guadalupe, Madre nuestra, una ves mas te doy grasias, por haber salvado mi hogar de la mas horrenda desgracia.Yo tu hijo. SALVADOR MORELOS” (sic).

 

O primeiro paciente, trajando uma camisa comprida no tom alaranjado até a região do antebraço, se encontra de barriga para cima, com o braço direito sobre o abdômen e o braço esquerdo alongado sobre a parte externa da coberta; está parcialmente coberto por uma colcha com graduações de verdes clara e escura.  O segundo paciente repousa na posição lateral esquerda, com braço direito para fora; está coberto com uma colcha mesclada em branco e vermelho.  O terceiro leito está ocupado por uma enferma que possui cabelos em tamanho mediano, até a região dos ombros; está vestindo uma camisa marrom longa até a região do punho; está descansando de barriga para cima, e expõe o braço esquerdo sobre a colcha mesclada em azul e branco. 

 

Ao lado direito do terceiro leito se vê um suplicante, de carnação rosada, vestindo sapato preto, calça preta, camisa comprida verde; possui cabelos pretos. O possível visitante se encontra ajoelhado e com as mãos postas em sinal de oração; está direcionado à paciente e imagem da padroeira.


 

                                                                      Ex- voto a Nossa Senhora de Guadalupe

 

Tábua ex- votiva completamente pintada e confeccionada em madeira fina, sem datação. A narrativa está dividida em três planos; e se passa em um dormitório composto por parede azul claro e chão com piso desenhado em dourado e marrom. No primeiro plano, parte superior, à direita do quadro, se vê a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe em ascensão, rodeada de nuvens em tons brancos e acinzentados, estando envolta do próprio resplendor dourado; acima da cabeça da padroeira se nota um pássaro de bicos compridos, carregando toda a imagem da Nossa Senhora. 

 

Na extremidade, à direita, são visíveis arranjos de elementos fitomorfos em tons verde, vermelho e branco; e na extremidade, à esquerda, se vê a bandeira do México, com o brasão desfocado. No segundo plano se observa um leito com cabeceiras marrom; a suplicante se encontra em repouso e ao seu lado direito se vê uma criança recém nascida, ambas cobertas por um lençol branco que recai em direção ao chão, com a seguinte inscrição: “ES UM MILAGRO”.  Acima do leito se vê um quadro fixado na parede, com a paisagem de céu azul e nuvens brancas; há elementos fitomorfos com oscilação de verdes claros e escuros; o solo é demarcado com um caminho central e ao fundo se vê montanhas.

 

No terceiro plano se nota a legenda: “LA SRA. ANA. MARIA MURILLO! SE EN COMENDO A LA SMA.VIRGEN DE GUADALUPE! POR -5- TUMORES.  EN LOS SENOS SINPODERLE DAR. ALIMENTASION A SU NIÑA. Y LA CLEVARON CON ESPESIALISTAS DE ALIMEODRIGUEZNTASIONES. A LA NIÑA. !!  IRENE- RODRIGUEZ !! DE 4 MESES. Y DOY. LAS MAS. INFINITAS GRACIAS. PUBLICADAS. YPAGO. ESTE RETABLO. POR NUESTRO SALUD. VIVIA. MEXICO.”


 

                                                                              Ex- voto a Nossa Senhora de Guadalupe

 

Ex-voto pictórico representando cena que acontece provavelmente em um quarto, com paredes em tonalidade azul e manchas de decomposição; piso com tons de marrom. No pequeno ambiente se observa, à esquerda, a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe revestida pelo tradicional resplendor, e ao lado direito, diante da imagem da santa se percebe uma família com mãos postas em oração, joelhos flexionados ao chão, e aparentemente com os pés descalços; no centro se destaca a figura masculina, o patriarca da família, trazido em veste branca e escápula vermelha; os demais integrantes aparecem em organização enfileirada. É notável um menino com vestes brancas na sequência próxima a parede; a matriarca aparece vestida com blusa branca e saia comprida na cor azul escuro, é visível em seu colo um bebê envolto por um manto amarelo; ao lado direito da mulher mais uma criança, também com traje branco. Na parte inferior do retábulo, a descrição do ocorrido: 

 

“Macário Montalbo estando gravemente enfermo, in / vocó com el alma à Ntra divina Madre de Guadalupe: y[…] cobró La salude. El y su família le dan gracias. […]


 

                                                                        Ex- voto em Nossa Senhora de Guadalupe

 

Tábua ex-votiva confeccionada em madeira fina completamente pintada, datada de 1940.  A narrativa se passa em ambiente natural e apresenta dois planos. No primeiro se observa o verbete: “Susana jobani. agosto. 15 de 1940” (sic). No segundo plano, se observa, à esquerda, uma mulher de carnação branca e cabelos loiros, trajando sapatos pretos e meias brancas, usando vestido em tonalidade lilás e cinto preto marcando o abdômen, segurando uma grande vela acessa na mão direita. Posicionada de joelhos, fazendo alusão ao cumprimento de desobriga, no caminho de terra delimitado no solo. Atrás da suplicante se nota quatro elementos fitomorfos em tom verde escuro, apresentando tamanhos diferentes; à esquerda da fiel se vê a presença de picos montanhosos em tonalidades azuis e verdes; por detrás das rochas se observa uma luminosidade amarela; o que pode dar sentido ao percurso da suplicante ao encontro de Nossa Senhora de Guadalupe. A imagem da santa está situada a direita do observador; a santa está em ascensão, envolta pelo próprio resplendor, perpassando pelo céu azulado com presença de nuvens. 


 

                                                                    Ex- voto a Nossa Senhora de Guadalupe

 

Objeto ex-votivo confeccionado em tábua completamente pintada, composto em  três planos, onde no primeiro se observa uma paisagem, no segundo a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, e no terceiro a inscrição da graça alcançada. Na paisagem, o mar aparece centralizado, em tonalidade azul com graduações, e ondas presumidas pela tonalidade branca, no qual se percebe a presença de um corpo aparentemente feminino, de carnação branca, com cabelos pretos e vestimenta na tonalidade amarela, parcialmente submerso na água. Ao fundo se situa uma cadeia de montanhas em tonalidade azul com graduações em branco. À esquerda da imagem se nota a presença de elementos fitomorfos, tais como um arbusto e uma planta aparentando ser uma palmeira, ambos em tonalidade verde, sobre uma estrutura acinzentada semelhante a uma rocha. À direita, uma formação rochosa de tonalidade cinza, apresentando sombra em tom mais escuro. No segundo plano, que está na parte superior esquerda do retábulo, se observa a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe, com o tradicional esplendor, e à sua esquerda se percebe uma mulher de carnação branca, envolta por um manto vermelho, com túnica amarela de orla branca, ajoelhada e com as mãos em posição de oração. Em seguida, a descrição que se refere ao fato ocorrido:  

 

“Doy Gracias a la Santisima Virgen de Guadalupe… por haverme salvado de ahogarme em el puerto de Manzanillo  Col. 4 de Abril/58  José Muñoz E.”
​

Em termos de percepção visual (pintura), nota-se um primeiro plano mesclado ao segundo, pois foi inserido diretamente sobre ele e é representado pela legenda escrita à mão, apresentando três tipologias distintas de caligrafia, e alternando as tonalidades vermelho e preto.

 

 

Imagem numa perspectiva da percepção visual – pintura

 

O segundo plano é composto por três pontos primários que se alongam. Respectivamente da esquerda para a direita do observador o primeiro se alonga verticalmente e representa a Virgem de Guadalupe, configurada em sua estética tradicional; o segundo é ampliado em “L” representado pela fiel de joelhos e corpo direcionado à Virgem, compondo parte de um triângulo; e o terceiro se acentua levemente em horizontal, criado pelo corpo parcialmente submerso. O terceiro plano configura-se em uma paisagem natural, com um elemento fitomorfo à esquerda e um bloco rochoso à direita. Pela mesclagem de tonalidades, podemos afirmar ser uma pintura ácida, quando as tonalidades quentes e frias se aproximam, não proporcionando o quente e o frio da composição. Há pequenas ondulações na composição, mostradas nos rochedos e levemente na água.

 


 

                                                                          Ex- voto a Nossa Senhora de Guadalupe

 

Tábua ex-votiva, confeccionada em madeira fina, datada em 1941; plano de fundo quase que totalmente pintado em tonalidade marrom.

 

À esquerda se nota uma mulher de carnação branca, cabelos pretos; trajando vestido de manga comprida que cobre o corpo inteiro; ela evidencia a enfermidade do membro inferior direito, imobilizado desde a crista da tíbia até o calcante; repousando sobre um assento de madeira com quatro ancas; estando com a perna levemente suspensa, apoiando-a sobre um pequeno tamborete de madeira; o pé da suplicante entra em contato com as nuvens da tradicional imagem de Nossa Senhora de Guadalupe em ascensão, que se encontra frontal ao corpo da suplicante, à direita do observador.

 

Nota-se o arcanjo na peanha da padroeira; de carnação branca, com cabelo marrom na região dos ombros, com os olhos fechados, pescoço levemente curvado à esquerda, vestindo uma camisa vermelha e asas graduadas em azul, amarelo e vermelho; acima dele se observa a Nossa Senhora, também de carnação branca; vestindo túnica vermelha e véu sobreposto em tonalidades azul claro e escuro, com detalhes e borda dourada; mãos postas em sinal de oração; pescoço pendido levemente à direita; envolta pelo próprio esplendor, rodeada de nuvens.

 

A parte inferior do ex-voto preserva a madeira natural; disponibilizando o registro epigráfico da suplicante: “Estando enferma de uma pierna, por uma llaga. Pedi a Na. Sa de Guagalupe, com todo Corazón alibiara, em accion de grasias dedico, el presente. Romana Estrada. Fro.26. 1941” (sic).

 


Iconografia por Fernanda A.Camelier Mascarenhas- Assistente de Pesquisa- PIBIC Voluntária

Análise Iconográfica

Ex-voto pictórico, policromado. A legenda deste ex-voto vem na parte superior, e traz: “Milagre feito ao Sr. Silvestre Borges em 1952… pelos seus esforços desejando construir um ranchinho o qual achava impossível diante a época dificultosa, então pediu a N.S.D “Ajuda” que lhe ajudasse, e pela fé, foi contemplado Gças a Deus. Canavieiras, 5 de Agosto de 1955”.

No lado esquerdo da placa, em destaque, a imagem de Nossa Senhora D’Ajuda. A Virgem segura o menino Jesus com o braço esquerdo e o direito estendido segura um cetro.  A Virgem veste uma túnica azul, sobreposta por um manto dourado, com detalhes em vermelho na borda. Na sua cabeça está uma coroa com um crucifixo no topo. A coroa é adornada com cinco pedras vermelhas. Seus cabelos são pretos e caem à altura do ombro. O menino Jesus está vestido com uma túnica branca, com uma barra dourada na margem inferior da veste. Usa uma pequena coroa dourada. Suas mãos estão unidas, em oração. A imagem está sobre um pedestal.

Sobreposta a imagem da Santa está uma fotografia, em bricolagem, de três pessoas, na frente de uma casa. A fotografia está circundada pela pintura do telhado e da parede lateral da casa, fazendo a composição do desenho. Da frente da casa, sai uma estrada sinuosa de barro que leva a porta da Igreja.   A Igreja é branca e possui uma única torre localizada do lado esquerdo. Na frente da Igreja existe um crucifixo. No lado direito da Igreja, existe uma pequena vila com um conjunto de casas.

Na parte inferior da placa ex-votiva, em frente a ilustração da Santa, existe   uma imagem elíptica que se assemelha a um lago. No lado direito, no canto inferior está a assinatura do pintor da placa, “Linho Pintor”.

Análise Iconológica

 A placa ex-votiva é datada de 1955, na cidade de Canavieiras e é em agradecimento a Nossa Senhora D’Ajuda.  A igreja representada na placa se assemelha ao Santuário de Nossa Senhora da Ajuda, localizado em Arraial da Ajuda.   A cidade de Canavieiras fica no Estado da Bahia, a 180 km ao sul de Salvador e cerca de 200 km de Arraial da Ajuda, que é um povoado próximo a Porto Seguro. O culto a Nossa Senhora da Ajuda se iniciou no Brasil Colônia, com a chegada da imagem da Santa trazida por cinco padres jesuítas devotos da Santa. Esses padres integravam a comitiva de Governador Geral do Brasil, Tomé de Souza. Se estabeleceram no Sul da Bahia e construíram a capela em homenagem a Santa.  O Santuário Nossa senhora da Ajuda é tido como o mais antigo do Brasil.

Este ex-voto traz elementos da realidade local, ao representar a igreja e o povoado, com imagens que são retratos fiéis do santuário e da localidade Arraial da Ajuda. A presença da foto colada na placa faz uma conexão entre pessoas reais, o milagre alcançado, e a localidade onde se passou o milagre. Este exemplar é um testemunho de fé e agradecimento, e quando exposto no painel de ex-votos que existe no santuário (https://projetoex-votosdobrasil.net/santuarios-ne/arraia-d-ajuda/#jp-carousel-5424), se torna um mecanismo de comunicação popular, entre o devoto e as pessoas que visitam o santuário.  Este ex-voto traz a mensagem da fé, e é também um documento da realidade, já que possui imagens que retratam uma época e local.

Referências Bibliográficas

SANT‘ANNA, Padre Antonio Clayton. Nossa Senhora da Ajuda. In: Academia Marial. [S. l.], 20 ago. 2012. Disponível em: https://www.a12.com/academia/artigos/nossa-senhora-da-ajuda-1. Acesso em: 4 dez. 2022.


Iconografia por Fernanda A. Camelier Mascarenhas- Assistente de Pesquisa- PIBIC Voluntária

Análise Iconográfica

O processo de bricolagem, o desenho e as cores fortes ganham ainda mais espaço no ex-voto tradicional, e no exemplo documentado em Arraial da Ajuda, na Bahia, Brasil, o determinismo geográfico cai por terra frente ao despojamento estético do ex-voto pictórico brasileiro. (imagem acima)

A placa ex-votiva pictórica emoldurada, traz à esquerda do enquadramento a representação da Imagem de Nossa Senhora D’Ajuda e à direita um jovem. Na parte inferior está uma legenda informando:

“Milagre que fez a Gloriosa Nossa Senhora D’Ajuda a Sra. Ana Dias da Cruz, quando seu filho   Otelino Dias da Cruz adoeceu de febre de Tifo que o levou quaisi a morte então, ela em aflição recorreu a nossa senhora e foi atendida, pois seu filho salvou-se da morte hoje é um homem forte graças a Deus.”

A Nossa Senhora D’Ajuda está retratada de forma clássica, com a túnica azul, que cobre parcialmente a alva de cor vermelha. Seus cabelos são pretos, na altura do ombro. Uma coroa dourada está sobre a sua cabeça. Carrega o menino Jesus no colo, sustentando-o com o braço esquerdo. Na outra mão segura um cetro. O menino Jesus veste um hábito azul de punhos dourados e faixa dourada na cintura. Usa uma coroa na cabeça.

O jovem, provavelmente Otelino, encontra-se de pé, com a perna esquerda dobrada, cruzando, como se formando o número “4”. Usa uma camisa de manga curta amarela, e calça azul. Seu braço esquerdo também se encontra dobrado.

O retablo não possui data e nem assinatura, mas pertence ao século XX, provavelmente a década de 1980. Sua moldura está com uma conservação precária. Na parte superior apresenta um suporte para permitir a fixação na parede. A legenda do retablo, em papel colado e com escrita cursiva em esferográfica, explicita a intenção do agradecimento, enquanto as imagens pintadas materializam a santa e o jovem recuperado da doença.

Análise Iconológica

O registro de nome e sobrenome das pessoas envolvidas, revelam o propósito de testemunhar o milagre ocorrido e fazer pública a graça alcançada. As informações que se tornam públicas, com a exposição da placa ex-votiva em uma sala de milagres, são divulgadas entre as pessoas que passam na Igreja e visitam a sala de milagres.

A febre tifoide (TIFO) é uma doença bacteriana aguda, relacionada diretamente a baixos níveis socioeconômicos em regiões com saneamento básico precário, má higiene pessoal e ambiental. Atualmente ocorre de forma endêmica, ocorrendo epidemias em áreas mais precárias como as regiões Nordeste e Norte do Brasil.

O retablo informa a ocorrência da doença, no interior da Bahia, sendo desta forma um registro histórico de época, e por isso podemos considerar como um medium que alimenta a memória coletiva. Segundo Halbwachs (1990 e 2004) as tradições e costumes, as paisagens e personagens históricos, o folclore, a música, dentre outras coisas são pontos de referência que estruturam a memória pessoal do indivíduo e que são inseridos na memória coletiva.

Referência Bibliográfica

Febre Tifoide. In: Febre Tifoide. Online. [S. l.], Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/f/febre-tifoide. Acesso em: 12 dez. 2022.


Por Sasha Morbeck Miranda – Pesquisadora Assistente IC/CNPq 

Análise Iconográfica

Ex-voto policromado, documentado na Igreja de Nossa Senhora D’Ajuda, no distrito de Arraial D’Ajuda, no sul da Bahia. Possui duas cenas segmentadas de ordem cronológica. Na primeira cena narrativa é representado um homem negro acamado em um hospital. Na segunda cena, o mesmo homem é representado fora do leito, em pé, de perfil, de frente para a figura da Nossa Senhora D’Ajuda que também se encontra em perfil.  

 Com a predominância da cor vermelha, o cenário destaca a cruz vermelha que é um símbolo de cuidados médicos. É utilizada uma técnica minimalista para representar o cenário, poucas linhas projetam os móveis. Há uma legenda na parte superior do ex-voto, apesar da pouca legibilidade, nota-se que está escrito ‘’Agradeço a Nossa Senhora D’ajuda pelo milagre[…]’’. 

Na parte inferior, também em baixa legibilidade está o nome do devoto, que aparenta ser ‘’Gabriel Policarpo’’.

Na cena à direita é mostrado o homem e a Nossa Senhora D’Ajuda de frente um para o outro, a Santa estando alguns centímetros acima do homem, há nessa cena uma representação de uma luz com coloração vermelha emanando da Santa, e indo em direção ao devoto.  

Análise do discurso 

Arraial D’Ajuda é o primeiro Santuário Mariano do Brasil, em si carrega uma forte tradição católica. Neste retablo, é possível notar uma forte relação do devoto com a Nossa Senhora D’Ajuda, e demonstra em sua narrativa a superação de uma enfermidade. A expressão ex-votiva pictórica possui uma grande exposição do corpo e expõe que a maior semelhança ou dessemelhança com Deus é assinalável no corpo, tendo como princípio de natureza espiritual, o ser humano, microcosmo, atingido pela doença ou pela deformação, põe em desequilíbrio o macrocosmo. Doença, lesões, mutilação testemunham o exílio da humanidade na região da dessemelhança, isto é, do pecado. Portanto, nada há de estranho em que uma inteira aceitação da morte coexista na tradição católica, trazida por Portugal e manifestada no Brasil, com a procura da regeneração do corpo, expressa de maneira concreta nos ex-votos que expressam a enfermidade e a superação representada pela devoção. (POUCHELLE, 1976 p, 299 Apud FROTA, 2012, p 25). 

Referências Bibliográficas 

FROTA, Lélia Coelho. Ex-votos em Congonhas: o resgate de duas coleções. Brasília, DF: IPHAN, 2012. 208 p. il. (Acervos 1) 

Guia Digital sobre Arraial D’Ajuda <https://www.arraialdajuda.tur.br/arraialdajuda/> acesso em 12/12/2022 


Por Maria Clara Oliveira – Assistente de Pesquisa – FAPESP

Análise iconográfica

Ex-voto documentado na Igreja Nossa Senhora d’Ajuda, na Bahia, Brasil. Vemos a pintura que traz um homem deitado em uma cama de molduras decoradas, coberto por um lençol. Sentada ao lado do leito da cama, uma mulher de vestido vermelho estende a mão sobre o corpo do homem. Uma figura feminina, de vestes azuis, flutua ao lado esquerdo. A figura, que representa Nossa Senhora d’Ajuda, usa véu e coroa, carrega um livro e um cajado. Acima da pintura, está a legenda do retablo: “Milagre que fez N. S. da Ajuda a Joaquim Cyriaco dos Santos a 2 de fevereiro de 1929 em Belmonte se achando atacado de uma grave moléstia chamou pela a mesma N. S. ao qual foi valido. Belmonte 23 de janeiro de julho de 1929”

Análise iconológica

O tema do sofrimento aparece como uma parte integrante dos ex-votos. Um dos males mais corriqueiros e comuns que afetam os suplicantes é a doença, e estes, impotentes e na falta de socorro, recorrem ao apelo salvífico dos santos. O santo visto como capaz de sanar o mal da enfermidade de Joaquim é Nossa Senhora da Ajuda, entidade de fama como curadora, capaz de conceber dádivas espirituais. Frade (2006) pontua que “por meio da ação corporal e/ou oferta material, o devoto agradece à entidade sagrada que o acorreu em momento de aflição, o benefício recebido”. Assim, o ex-voto representa a materialidade miraculosa, um meio em que se pode testemunhar a eficiência da súplica, perpetuando o mito do santo. É possível que a mulher ao lado de Joaquim seja sua mãe ou esposa, talvez ela mesma a autora do agradecimento, mas as informações presentes no ex-voto nos permitem apenas especular. 

Frade, C. (2006). Santo de casa faz milagre: a devoção a Santa Perna. São José dos Campos: Fundação Cultural Cassiano Ricardo, Centro de Estudos da Cultura Popular.


Por Sasha Morbeck Miranda – Pesquisadora Assistente IC/CNPq

Manoel BomFim Moreno

 

Ex-voto policromado com moldura em madeira, apresentando um bom estado de conservação da moldura e da pintura. A obra, exposta no Museu do Bomfim, em Salvador, Bahia, Brasil, representa um pequeno barco a vela em alto mar. O cenário é composto por variações de azul e branco, representando o céu, o mar e as nuvens. Nota-se técnicas de profundidade na textura do mar, com relevos criados pela alternância de tons de azul claro e escuro para representar um mar agitado por ondas. Há a presença de nuvens, em primeiro plano, uma nuvem mais escura que aparenta provocar vento e chuva. Ao fundo, em segundo plano, há outra nuvem menor, mais clara, onde está representada a imagem de Jesus Cristo, o Bomfim, acima dela. A terceira nuvem, em terceiro plano, é uma tímida linha branca que serve para aumentar a perspectiva do cenário. 

O retablo apresenta escritos em vermelho, na parte superior, com os dizeres, sem datação: ‘’OFEREÇO AO SENHOR DO BOMFIM POR UMA GRAÇA ALCANÇADA’’, em baixo, o nome do romeiro ‘’MANOEL BOMFIM MORENO’’.

O pequeno barco a vela representado na pintura ocupa o centro, ganhando destaque no cenário. Ele aparenta ser uma embarcação de madeira, o tecido das velas é branco. Há três pessoas dentro do barco, duas próximas à popa da embarcação, e outra perto da proa, segurando o que aparenta ser uma vara de pescar.

No lado esquerdo, ao fundo da pintura, está a imagem de Jesus Cristo Crucificado em uma cruz representada pela cor preta. A figura de Cristo possui poucos detalhes anatômicos e veste perizônio branco, tradicional da iconografia cristã.  Há raios solares em torno da crucificação, que está acima de uma nuvem.

Análise do discurso

Um dos pontos interessantes a ser observado neste retablo é que, para além de seu caráter ex-votivo, o agradecimento e a assinatura do romeiro trazem informações sobre a relação de ambos, demonstrando estarem conectados pelo nome, dando a entender que o nome do santo tenha sido inserido na vida do devoto anteriormente como um caráter votivo, mostrando que existe uma tradição passada de geração a geração.



 

Ex-voto em San Miguel del Milagro
Ex-voto em San Miguel del Milagro

Retábulo documentado em San Miguel, confeccionado em madeira fina completamente pintada, apresenta bordas na cor azul escuro. A cena retrata uma estrada asfaltada com duas vias extensas e desertas, com a ocorrência de um acidente automobilístico. Na parte superior nota-se o céu em azul celeste; montanhas com graduações de azul e a presença de elementos fitomorfos em meio ao horizonte. Ao lado direito se vê a imagem de San Miguel del Nativitas, sobre nuvens com os pés fixados em base de pilastra circular vermelha, vestido com saiote e saia em tonalidade azul orlado em graduações de dourado e vermelha, respectivamente;

O manto é azul hachurado, e cobre parcialmente  o braço esquerdo  recaindo na altura da cintura; apresenta cabeça redonda e face levemente quadrada, cabelos pretos na altura do ombro e sobre a cabeça é visível um penacho em cor azul e branco; está envolto por seu próprio resplendor e  se encontra ladeado por dois arcanjos também de tonalidade branca, tendo o da esquerda  trazendo um objeto semelhante a uma trombeta nas mãos e o da direita segurando levemente o báculo pertencente a San Miguel. 

No roda pé, a legenda: 
EL DIA 7 DE MAYO DE 1961 SE VOLCO UM CARRO COM PEREGRINOS DEL PUEBLO DE SANTA ANA NECOXILA QUE VENIAMOS PROCEDENTES DE SAN MIGUEL DEL MILAGRO. Y SALIMOS TODOS CN BIEN POR LO QUE EM ACCION DE GRACIAS DEDICAMOS EL PRECENE A LA MILAGROSA IMAGEN DE SAN MIGUEL QUE SE VENERA EM ESTE LUGAR. Septiembre 29 de 1961. (sic)Para a construção deste ex-voto o autor se utilizou de diversas tonalidades em azul, criando uma tela com profundidade, embora fria, apresentada com pontos de fuga. 

A predominância é para os tons azuis e verdes. A composição apresenta dois pontos importantes, sendo um primário, destacado em vermelho e um secundário, destacado em preto. O ponto primário é representado pela figura de San Miguel, de carnação branca, em resplendor na tonalidade amarela, de pé sobre uma configuração de nuvens onduladas em branco. O ponto secundário é representado por um carro deslizando na estrada, em tonalidade azul. A obra apresenta muitas ondulações, das quais se destaca a linha que demarca a estrada em um “S” alongado, cortando a imagem do canto inferior esquerdo ao superior direito. Logo ao lado direito da estrada, é possível que o observador perceba a presença de novas ondulações em paralelo, que sugerem, de baixo para cima, certa elevação representando uma encosta. Ao fundo, novamente se observa a existência de mais ondulações que representam a formação de morros, o que reforça a ideia de que o terreno é bastante acidentado. Próximo ao canto esquerdo inferior é possível perceber que no canal sob a estrada há uma leve ideia de profundidade e transparência. A descrição da imagem e o agradecimento se destacam em verbete, em laranja, na caixa retangular na parte inferior, fator bem tradicional nos ex-votos pictóricos.


Ex-voto em San Miguel del Milagro

Bilhete ex-votivo confeccionado em papel branco aparentando formato A4, fixado com fita adesiva sobre uma faixa de madeira branca fina na parte superior e parede branca nas outras três bordas. O objeto é composto pela imagem de São Miguel dos Milagres, que está posicionada no canto superior direito, representada através de desenho característico da arte popular, constituído por traços semelhantes aos realizados por uma criança. A descrição em agradecimento ao santo está espalhada pelo restante do espaço. 

São Miguel está retratado em carnação branca, entrajado em vestes de guerreiro composta por uma bota de cano longo em tonalidade marrom clara; saiote de tonalidade idêntica à da bota no verso, possuindo anverso em tonalidade amarela pregado à altura das coxas por botões em tonalidade cinza; corpete em tonalidade azul com graduações no mesmo tom, com orlas superiores e um babado fixado na orla inferior, ambos em tonalidade verde, e mangas em tonalidades vermelha e marrom claro; apresenta o braço direito elevado, segurando uma cruz romana em tonalidade marrom e o braço esquerdo em repouso, mas portando uma pena grande em tonalidade amarela, orlada em tonalidade marrom escuro; dotado de asas em tonalidade marrom claro; cabelos na altura do pescoço, com ondulações, em tonalidade cinza, sustentando sobre a cabeça um elmo com penacho em tonalidade marrom; ao fundo da figura do santo se nota a presença de um bloco sem formato primoroso em tonalidade cinza, semelhante a um rochedo.

 Na legenda, o agradecimento escrito a mão: “GRACIAS…… SAN MIGUEL DEL MILAGRO POR AVER HECHO REALIDAD NUESTROS SUEÑOS QUE SON NUESTRA PANADERIA EL CARRO, AMOR EN NUESTRA FAMILIA Y […] PRONTO NOS ENTREGARAN NUESTRA C[…]. / GRACIAS ATI EMOS LOGADO NUESTRAS MET[…] HOY ESTAMOS GUSTOSOS DE ESTAR UM AÑO MAS VISTANDOTE […] DA AMI FAMILIA E SIGUENOS DANDO VENDICIONES, PROTEJE […]S CLIENTES POR QUE ELLOS SON LA VIDA DE MI NEGOSIO[…]NOS MUCHA SALUD. / Y NUEVA MENTE GRACIAS POR TODO TE AMAMOS Y TE VENERAMOS SAN MIGUEL DEL MILAGRO……. / ATTM… / FAMILIA… SANCHEZ SEGURA. DE ALTOTONGA VERACRUZ / A[…]9/02/12….”

OBS: O ex-voto está ladeado por dois panos, presos por ganchos brancos nos cantos superiores, sendo o da direita vermelho com detalhes em tonalidades marrom escura e amarela,  e o da esquerda branco, ambos apresentando nós. Não houve como certificar se foram colocados pelo próprio fiel, juntamente com o ex-voto.


Ex-voto em San Miguel del Milagro

Ex-voto fotográfico, fixado em parede, em quadro emoldurado com  vidro, bordas de madeira com linha dourada.  A cena apresenta dois planos: na parte superior se observa a legenda que narra o acontecimento: “yo Elias Fernandez Ramirez Doy Gracias a Señor San Miguel Arcangel por cuidarme y librarme de todo peligro em mi accidente que me paso El dia 04 del diciembre del 2011 cuando mi camioneta cayo por la barranca de San Miguel Del Milagro” (sic). Ao lado do escrito se vê o fiel, provavelmente o Sr. Ramirez, de cabelos e bigode grisalhos, com camisa branca e blusa verde musgo. 

​Neste ex-voto é perceptível a edição fotográfica com montagens através das novas tecnologias, representadas na alusão e descrição do milagre, tendo repetição e inclusão de imagens. Na parte central, são visíveis construções arquitetônicas residenciais, aparentando ser o centro  urbano da região onde se localiza o Santuário de São Miguel. Ao lado esquerdo se vê a alusão da trajetória do deslizamento feito pelo automóvel, é o registro do momento inicial ao final em movimento sinuoso com o término dentro de um campo; a representação da imagem de São Miguel Arcanjo segurando o báculo na mão direita e revestido por iluminação nos tons branco e azul, sendo essa coloração azulada em virtude de falha da impressão; de forma centralizada se nota a escadaria com alusão ao declínio e a ascensão do fiel; a direita se vê a caminhonete vermelha com uma simples danificação no capot, é perceptível que após o acidente o Sr Ramirez  que se encontra de pé ao lado do veículo objetiva dar veracidade ao acidente retratando todo o percurso com a representação do objeto imaterial transformando e elaborando a construção pictórica e apresentando o seu louvor à intercessão de São Miguel.